LUA VERMELHA

 

Capítulo III

 

NO ESCURO de uma sala onde a iluminação era feita por velas, os quatro anciões estavam reunidos por algum propósito misterioso. Sentados em uma mesa, estavam em silêncio, até que foi quebrado quando a mulher indagou:

– A nossa convidada já está pronta?

– Creio que já a estão trazendo. – respondeu um dos homens.

– Gostei muito das escolhas das bruxas Sebastian, os últimos dez pelo menos são absolutamente perfeitos. Já têm algum favorito em mente? – a mulher semelhava querer saber de tudo, mas o ancião parecia irritado com todo aquele questionamento;

– É claro que não, nenhum deles começou a completar suas missões ainda, portanto não podemos dizer qual deles têm mais condições para os nossos propósitos.

Todos pararam a conversa quando deram três batidas na porta. Logo depois Sebastian ergueu sua mão e as portas se abriram. Do lado de fora havia uma mulher de cabelos ruivos, nua, acompanhada por dois demônios gêmeos, de cabelos pretos e pele bem branca.

Seu rosto estava coberto pelos cabelos ruivos, mas Sebastian sem tocar na garota também jogou seus cabelos para trás, para ver o lindo rosto daquele demônio.

– Mais uma perfeição. – disse a mulher. – Fico apaixonada quando vejo que temos criaturas mais belas que os anjos, no inferno e tão corrompidas que eu me sinto completa.

– Qual o seu nome? – perguntou Sebastian a garota.

– Eu não sei. – seu olhar para o ancião era de pura crueldade.

– Vamos, será a primeira vez na sua vida que terá a chance de ter um nome de verdade, escolha com sabedoria.

– Eu não sei. – o tom de fúria na voz da ruiva deixou Sebastian feliz. – Quem são vocês?

– Calma garota, quer saber tudo de uma só vez? Vamos por partes, primeiro escolha seu nome.

A garota pensou por alguns instantes, mesmo sem saber qual era o motivo de tudo aquilo, mas parecia não ter medo das suas escolhas. Ela fechou seus olhos e deixou seu interior responder aquela pergunta.

– Katherine.

– Que escolha perfeita. – disse a mulher.

– Estou me sentindo fraca. – a ruiva quase caiu, mas os demônios a seguraram.

– Use o seu dom, feche seus olhos novamente e você saberá o que fazer.

Katherine novamente fechou seus olhos, imagens surgiam na sua cabeça como se explicassem o que ela deveria fazer naquela situação. Apoiada nos dois demônios, Katherine se reergueu, segurando em cada um deles, seus olhos ficaram brancos, os dois demônios estavam paralisados, suas peles começaram a envelhecer aos poucos, os dois foram ao chão, a medida que isso acontecia, o demônio ruivo se erguia de forma imponente. Ambos os demônios se tornaram pó em poucos segundos.

– Me sinto absolutamente melhor agora, apesar de que a energia deles ainda não me saciou.

– Meus parabéns, você conseguiu Katherine, agora vai aprender algumas coisas novas e descobrir qual é o verdadeiro motivo da sua existência.

 

*****

 

Depois de alguns dias, Sebastian, agora sozinho, pediu para que Katherine fosse chamada.

– O senhor mandou me chamar? – disse ela se ajoelhando na frente do ancião.

– Pode se levantar. Sim, creio que o treinamento que recebeu de caça te ajudou muito, já sabe o que fazer quando estiver na terra para concluir suas missões. – Sebastian se aproximou da ruiva, colocou sua mão em seu ombro. – Sua primeira missão será na Terra, mas não vai ser caçar anjos e será sozinha.

– Que missão é essa? – perguntou a ruiva.

– Cada demônio tem a sua primeira missão, com você não será diferente, mas se prepare, ela não será nem um pouco fácil.

– Estou preparada. – a vontade de sair pela primeira vez daquele lugar era imensa, mesmo sem saber o que estava por vir, a personalidade daquele demônio de agir por impulso era percebida por qualquer um.

– Você tem um irmão, sabia? – Katherine não disse nada. – Era para seu irmão ser como você, mas sua querida mãe tentou se matar, e matar o seu irmão. – as pausas constantes na fala de Sebastian a deixavam mais apreensiva ainda. – Ela morreu, mas ele ainda está vivo, depois de mais de trezentos e cinquenta anos, como? – o ancião estava com raiva, havia algo que o deixava incomodado sobre esse rapaz. – Ele é o único bruxo puro de magia branca que existe em toda terra, e que quero ele morto, assim como os mais de mil demônios que aquela peste matou.

– E como você quer que eu o encontre? A Terra como me disseram é imensa.

– Não seja burra, ele vai te encontrar, tenho certeza que com o tamanho da magia dele, por mais que as trevas tenham escondido a sua, ele ainda vai te encontrar.

– Quer dizer que eu também era uma bruxa? – As revelações pareciam incomodar um pouco a ruiva, mas nada ao ponto de não querer aceitar o que ela era.

– Exatamente, era, vocês eram gêmeos.

O silêncio tomou a sala, se fosse qualquer outra pessoa, com toda certeza o desejo de querer saber quem era, de querer estar junto era grandioso, mas como se tratava de um demônio, só havia algo que ela queria.

– Pode deixar, se ele me encontrar até o fim da noite, ele estará morto.

A noite foi chegando e Katherine estava preparada para sair, suas roupas pretas coladas no corpo, mostravam o perfeito corpo daquela garota.

– Use o portal para ir, a última vez que ele foi visto foi nas mais altas montanhas da Terra, ele te levará diretamente para lá. Não quero nenhuma intervenção de outros demônios, apenas me traga uma prova da morte dele.

– Entendido.

Assim como foi ordenado, Katherine usando algumas armas acopladas no seu corpo foi para o local indicado por Sebastian, para assim encontrar aquele que possivelmente era seu irmão e concluir sua missão.

Quando chegou nas montanhas, ficou maravilhada com a imagem, apesar de ser noite, sua visão era perfeita, ela ficou observando aquele local, mas ao mesmo tempo procurando por alguma coisa que pudesse trazer pistas sobre aquele homem, sem nem mesmo saber como ele era.

Depois de algumas horas procurando o rapaz, Katherine foi surpreendida pela voz de um homem.

– Não abra suas asas para não chamar atenção dos anjos. – a ruiva estava próxima de fazer aquilo, mas se conteve antes que o fizera.

– Então é você. – o olhar da ruiva para aquele homem não continha qualquer sinal de saudade.

– É uma pena que te transformaram nisso, queria tanto te dar um abraço, afinal somos irmãos, mas dessa forma acho melhor ficarmos a essa distância. – o homem vestia um sobretudo preto e o que mais chamava atenção era a máscara branca em seu rosto.

– Porque não mostra seu rosto? – perguntou Katherine.

– Querendo conhecer seu irmãozinho? Creio que não será possível.

– Qual o seu nome? – a ruiva parecia curiosa demais para quem não se importava com nada.

– Eu não tenho um só, mudo de nome, de cabelo, de estilo, de tudo, de acordo com o lugar, com as pessoas, no momento me chamam de Gain. E o seu?

– Katherine.

– Me disseram que todo demônio tem a sua primeira missão, posso saber porque está na Terra?

Katherine sorrateiramente pegou sua faca, e em uma velocidade incrível atacou seu irmão bem no peito. Ele estava agoniando.

– Não pensei que seria tão fácil assim. – disse a ruiva.

– E não é. – Katherine percebeu que o homem já não estava na sua frente em uma fração de segundos.

– Creio que não te falaram o que eu sou.

– Sim, você é um bruxo.

– Não irmãzinha, eu sou o único bruxo de magia branca, capaz de acabar com demônios como você em poucos segundos. Sabe por quê? Porque eu, assim como você era, somos únicos e raros. Somos puros, alias eu sou.

– Você é um verme isso sim. – Katherine novamente partiu para cima do irmão.

– Katherine, Katherine, pense para agir, vai acabar morrendo cedo se continuar assim.

– Maldito, você nunca poderia ser meu irmão, não temos nada em comum.

– Somos gêmeos, – disse ele contando nos dedos. – bruxos puros de magia branca, únicos, mas realmente não temos mais nada em comum, você foi para o outro lado, se corrompeu.

– Cala sua boca, acha mesmo que pode me deter? Vou acabar com a sua vida, você não tem ideia do que eu posso fazer.

– Me mostra. – disse ele empolgado.

Katherine mais uma vez correu na direção do homem e o tentou atacar, dessa vez sem se mover, ele esperou até ver o que a irmã iria fazer. Katherine colou a mão em seu peito e da mesma forma que fez com os outros demônios, tentou roubar a vida do irmão, mas logo começou a se sentir mal.

– Então é isso que você faz? Uma ladra de vidas. Legal! Mas totalmente inútil. Vamos brincar um pouco minha irmã.  – Gain colocou sua mão na barriga de Katherine. – Renma. Limpidus.

Katherine começou a gritar desesperadamente, como nenhum demônio estava por perto pela ordem de Sebastian, ela estava à mercê do irmão.

– Acho que agora poderemos conversar um pouco.

– O que você fez comigo? – Katherine se sentia estranha.

– Limpei um pouco você por dentro, lógico que não tenho poder para destruir suas trevas, alias ninguém tem, mas consegui inibir um pouco a que estava no seu coração para que me escutasse com clareza.

– O que você quer de mim?

– É assim que eu gosto, controlada. – Gain sorriu para a irmã. – Eu não vou te matar, porque sei que você não queria isso de verdade, e sei também que essa não foi a sua escolha. Vamos embora comigo Katherine, eu te protejo, vamos arrumar alguma maneira de limpar essas trevas de você.

– Eu não posso, não vou a lugar nenhum com você, eles vão nos matar, eles são muito poderosos.

– Eu disse que te protejo, não vou deixar nada de ruim acontecer com você.

– Não posso. – gritou Katherine.

– Tudo bem, eu não vou insistir. Mas se você voltar para o inferno sem nenhuma prova de que me matou, creio que quem morre é você. Como eu tenho pena de você de não querer mudar seu destino, vou te ajudar minha irmã.

– O que vai fazer? – perguntou a ruiva.

– Nossos pais odiariam saber que eu fiz isso para ajudar um demônio, mas meu coração é bom demais, nem tanto.

Gain pegou uma das facas de Katherine e cortou dois dedos da sua mão direita sem hesitar. Em um dos dedos estava uma de seus anéis que ele usava em quase todos os dedos. Apesar de sangrar muito, o bruxo não mudou a sua fisionomia, que fez parecer que ele não sentia dor alguma.

– Você é louco.

– Não, sou solidário, ninguém vai ouvir falar de mim por muito tempo, então pode ficar tranquila, eu não vou estragar a sua mentira, apenas se cuida irmãzinha e tente fazer a coisa certa. – disse ele dando os dois dedos para irmã e desaparecendo em um instante.

– Gain. – Katherine parecia perdida, dentro de seu corpo havia uma mistura de sentimentos que ela não sentira desde que acordara. – Me desculpa. – talvez aquela fosse a primeira e única vez que Katherine usaria aquela palavra e experimentaria aquele sentimento.

 

*****

 

De volta a sala escura, Katherine pretendia encontrar Sebastian para entregar os dedos do irmão. Mas só encontrou alguns demônios repousando na sala conhecida com o Solture.

– Vejo que está de volta. – Sebastian apareceu bem atrás de Katherine, que se assustou. – Medo? Não foi isso que te ensinamos aqui.

– O importante é que eu consegui o que você queria. – ela colocou os dedos na mão de Sebastian. – Com licença.

Assim que saiu da frente do ancião, ela procurou algum local onde pudesse ficar totalmente sozinha, assim que encontrou, se sentou no chão e chorou. Lágrimas de real tristeza por não saber se a escolha que tivera feito era a correta.

Logo Katherine se levantou enxugou as lágrimas e risse para si mesma:

– Eu fiz a minha escolha Gain, agora eu preciso lutar por ela.

A ruiva voltou para onde Sebastian estava, agora acompanhado por dois outros homens, um parecia mais novo e o outro tinha quase a mesma idade de Katherine.

– Esses serão seus companheiros de caça Katherine, Carsten e Victor. – apontou Sebastian para os rapazes.

Um grande animal negro se aproximou de Katherine roçando na sua perna.

– Larxen te aceitou. – disse o rapaz mais jovem.

– Seja bem vinda. Meu nome é Carsten, pelo visto acho que nos daremos muito bem.

O olhar daquele rapaz fez com que as trevas de dentro de Katherine apagasse todas as memórias do seu irmão e voltasse a ser o demônio que era.

– Não percam mais tempo, está na hora de caçar os anjos. – ordenou o ancião.

– Vem Katherine, você vai gostar de ver aquelas asas brancas machadas de sangue.

– Sim acho que vou gostar.

– Katherine. – quando Sebastian chamou o nome da ruiva, todos ficaram em silêncio. – Fique com esse anel. – era o anel de Gain

– O que é isso? – perguntou a ruiva que não se lembrava de mais nada.

– Apenas um presente. – Sebastian logo saiu da sala.

O Autor
Professor de línguas estrangeiras, formado em administração de empresas, Danilo Vecchi vive na cidade de Londrina no Paraná. "Além do Céu e do Inferno" é o primeiro livro de uma saga e seu romance de estreia.
Sinopse
No meio de uma guerra que durava mais de 400 anos, Natalie Zeniek se viu entre as forças do bem e do mal, onde anjos e arcanjos a protegiam, seres da escuridão a feriam e um demônio, que nem mesmo sabia o significado desse sentimento, a amava.
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